domingo, 29 de agosto de 2010

O ESCAFANFDRO E A BORBOLETA (Le Scaphandre et le Papillon, França, 2007)

 

Talvez elogiar este filme tenha se tornado em um lugar comum, mas talvez ainda tenha gente que não o tenha assistido, assim, faz o que vou escrever não ser repetitivo.

O Escafandro e a Borboleta é baseado na história real de um antigo editor da revista Elle francesa que teve um derrame, deixando-o apenas com o controle de seu olho esquerdo.

Apenas ao ler esse enredo superficial, uma pessoa já fica sensibilizada e com vontade chorar, amolecendo o corpo e esperando uma história triste e deprimente. Essa é a reação natural que se espera de qualquer um que se prepara para ver uma história de alguém que ficou, além de tetraplégico, apenas com a possibilidade única de controlar seu olho esquerdo. No entanto, este filme é capaz de tornar uma história com esses tristes fatores em uma deslumbrante mensagem de esperança, persistência e paciência.

No início do filme o espectador se depara com uma imagem fixa e estreita, e escuta uma voz partida de reflexões interiores, assim, logo se entende que se está compartilhando da visão e de pensamentos alheios, sendo estes pertencentes ao personagem principal do filme. O filme, por sua vez, narrado em 1ª pessoa, passa a ser assistido como tal. Essa decisão de mostrá-lo através de um ponto de vista individual por um lado restringe a percepção do espectador, porém, por outro lado oferece a oportunidade singular de se analisar, de forma pessoal e empírica, os fatores que passaram a afetar a vida do personagem.

Para se adaptar a esse novo tipo de vida, o personagem conta com a ajuda e a resistente paciência daqueles no hospital responsáveis pelos seus cuidados. Ajudando-o também está sua ex-mulher que se torna presente e envolve-o com uma emoção nem sempre reconhecida. Esses relacionamentos, e a renovação de outros que estavam atordoados, motivam o personagem sequelado a aproveitar e valorizar as experiências vividas nesse seu mundo limitado. A vivência desses momentos não é passada como uma experiência mórbida ou nostálgica, mas sim como instantes a serem aproveitados. É claro que há um pouco de saudade e frustração nas ocasiões experienciadas, mas o que predomina, no fim, é a persistência e a beleza encontrada no mundo dessa pessoa, que, mesmo restringido, conseguiu alcançar pessoas longe de suas fronteiras.

Os aspectos mais técnicos do filme também foram explorados com grande maestria. A fotografia é ajustada em foco e textura de acordo com certos momentos do filme, mais especificamente em concordância com as mudanças fisiológicas no olho do personagem que serve de janela para o espectador. A trilha sonora é outro fator que está em comunhão com o que é mostrado. Essa sincronia apoia aquilo que está sendo exibido e fornece relevância ambiental para o que está contido no roteiro. Os atores, todos, desempenham um trabalho de altíssima qualidade. A credibilidade é autêntica e não foram guardadas reservas para a execução desse trabalho. Todos esses fatores foram belamente coordenados pelo diretor, Julian Schnabel, que tomou as decisões acertadas neste filme, transcendendo-o para uma obra de arte.


Essas qualidades merecem ser reconhecidas e mencionadas, pois elas enaltecem o trabalho de um diretor que conhece os mecanismos e procedimentos necessários para se realizar um filme. De posse desse conhecimento, ele pode decidir qual a melhor forma de alcançar determinado ponto de vista, optando, às vezes, por técnicas simples, ou até mesmo ultrapassadas, mas relevantes para determinada mensagem. Essa noção deve ser explorada e elogiada para que possamos desfrutar de prazeres semelhantes àqueles obtidos ao se assistir este filme.

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